segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

SE UM ANJO DESTRUIDOR...




Se um anjo destruidor pousasse na terra
Em busca de aliados dedicados
À única causa que vale a pena
E peregrinasse por ruelas e escombros
Envergado pelo peso da noite sobre as praças
Achasse aqui e ali uns jovens bêbados
Exalando perigos e os impulsos da traça
Cheiraria bem os seus pescoços
E passaria ao largo continuando a arruaça
Nem as roupas pretas e nem os moicanos
Nem os espinhos nas orelhas
Nem a eterna adolescência e a violência em gritos
Seduziria o milenar vigia
Nos vincos da cidade noturna e seus festejos
Ele passaria a língua ofídica
Até o nascer do sol, já fadigado
Os bares, os puteiros, as ruas
Infestados de invejosos do vento
E nosso alistador procura gente de terra
Fértil ou estéril, importa pouco
Ele gastará calcanhares e a vista
E tirará um cochilo ao ar livre, num banco
Às seis horas queimará de sangue solar a cara adormecida
E se arrastará até os subúrbios
Quando de soslaio esbarrará com mãos banhando uma cadela
Uma pequinesa ruiva de pelo brilhoso
Chamará sua atenção os respingos e as lambidas
Dentro da casa, tem jardins viçosos
Paredes, chão e crianças limpas
Tudo revestido de um fulgor extraordinário
De suor, tempo, economias e peles caídas
Sentado, tem alguém que ama calado
Se equilibrando na ponta da rotina
Mas de mãos dadas ao herói anônimo
Esse que é o terreno puro, limpo da inveja
E da cobiça do éter e da brisa
Desconhece o medo do peso, tem sujeira nas mãos
E nervos treinados pela monotonia
O anjo destruidor lhe aparece, seduzido
--- Queres as armas para destruir essa vida?
O herói estava a pôr esterco nos quiabos
Não prestou atenção à conversa
O anjo continuou o apelo
Em pé, entusiasmado, anos e anos; ele ainda está lá!
Só ao terreno puro, ninguém mais, confiando o arsenal demoníaco

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Get Out! (Corra!), 2017, de Jordan Peele



Talvez esse filme, independente de sua qualidade cinematográfica, expresse certos aspectos contemporâneos do racismo estadunidense. Nada de encapuzados da Klu klux klan, fogueiras, e o drama de strange fruit cantado por Billie Holiday. Tampouco os conflitos de Malcolm X e Luther King, ou o neonazismo como em A Outra História Americana, 1998, (Tony Kaye). Quando Monteiro Lobato quis publicar nos EUA o livro de propagando eugênica, O Presidente Negro ou O Conflito das Raças, e não encontrando editor, lastimou. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros”. O tempo da craniometria e da poligenia, destrinchados no livro A Falsa Medida do Homem pelo biólogo Stephen J. Gould, já era. Será mesmo?



O protagonista, um jovem negro namora uma bela caucasiana, que deseja lhe apresentar sua família. Apesar dos pressentimentos receosos, o jovem encara o desafio. O pai dela, um neurologista, a mãe psiquiatra. Não chega a ser estranho o jardineiro e a empregada da família serem negros, isso é um clichê social, desconfortável, mas habitual. O que é realmente estranho é a expressão e a conduta dos empregados. A perceptível artificialidade, como se fossem robôs programados, sempre felizes, sorridentes, indefectíveis. Aqui lembramos do filme Invasores de Corpos (1979), de Philip Kaufman. A perfeição da conduta combinada à ausência de espontaneidade, um comportamento mecânico, que mascara e ao mesmo tempo sinaliza o controle mental.

Somos apresentados aos ideais de pureza fisiológica quando os pais descobrem que o namorado da filha fuma. Que tal uma terapia simples e eficaz, hipnotismo? A psiquiatra é especialista em ortopedia mental, fácil dará um jeito. O jovem se recusa, mas tem ele escolha? Pouco a pouco o jovem vai descobrindo a trama, está numa arapuca. Finalmente lhe é revelado, trata-se de uma espécie de seita ou sociedade secreta, que opera transplante mental para corpos de negros. O que é notável aqui é que o racismo se manifesta com outra tonalidade. Não tanto as ideias cunhadas por Ernst Hackel (1834-1919) ou Francis Galton (1822-1911), que punham os negros como biologicamente degenerados, raça involuída próxima dos primeiros humanoides. Aqui, pelo contrário, o negro é colocado como biologicamente como superior. Tanto sua saúde como sua beleza, sexualmente desejável. Aqui os corpos dos negros são corpos fortes e úteis para toda sorte de trabalho. O mesmo ideário de escravidão. O negro como coisa, como meio, como utensílio dos brancos. O mesmo fascínio e medo que desembocam na violação sexual.

Voltando ao filme Invasores de Corpos, é como se os parasitas que inoculam os corpos e os controlam não fossem mais alienígenas vindo do espaço, mas os brancos por meio de transplante de neurônios. A semente do controle do corpo alheio é o próprio cérebro, culminando assim o fascínio mesclado ao ódio que a mentalidade branca e escravagista cultiva. O corpo forte e desejável do negro apoderado por uma escravidão plena. O corpo decrépito e envelhecido do branco é deixado, a alma branca é transportada para o corpo negro. E porque não um corpo branco? Talvez porque isso se configure crime contra Deus e contra a Humanidade. O corpo negro é ao mesmo tempo o mais eficiente, o mais forte, e ao mesmo tempo despojado de sacralidade e de direitos naturais. Pode-se violá-lo sem cometer crimes, ao mesmo tempo que se extrai uma mais-valia biológica.



É curioso que nos submetidos ao implante de neurônios a mente própria não se apague por completo. Ela fica no lugar designado pela psiquiatra de "O Esquecimento". A singularidade é enxotada para os porões obscuros da inconsciência, enquanto que o senhor de escravos domina a consciência, manobrando o corpo negro como bem quer. O corpo e a subjetividade ficam a oscilar entre um e outro, ora a singularidade e ora o domínio dos neurônios brancos. Instala-se uma crise interna. Trata-se das novas configurações do racismo, que instaura a divisão, a segregação no interior da subjetividade. O domínio deve se internalizar, converter-se no próprio arbítrio do sujeito. O escravo voluntário, que é levado a condenar a própria singularidade e a liberdade às masmorras do Esquecimento. Sem precisar ver o transplante de neurônio como uma metáfora, ele materialmente insinua a cirurgia que inicia com hipnose, e com as imagens transmitidas pelas telas. O racismo que dribla a proibição dos códigos jurídicos, tornando-se sutil, e tão capilar e fino quanto neurônios. As formas de escravizar e de fabricar escravos se tornam penetrantes, refinadas tecnologicamente e sedutoras  

domingo, 22 de outubro de 2017

BREVIÁRIO DA COMPOSIÇÃO

Breviário da Composição

I


Faltam poetas do mundo caduco
Das paredes convulsas e do chão rasgado
Com dedos de foices, bocas infernais, cabeças fumegantes
Com olhos vivos na cabeça, sanguinários e rastejantes

Encontrei você lá no bosque, violão lamacento
Eco por fora e oco por dentro
Tinha Baudelaire e Rimbaud tatuados na testa
A mochila transbordando absinto e festa
Açucarados de preguiçosos decadentismos
Eu sussurrei punhais em seu ouvido
Que suscitaram cócegas, escarros e gargalhadas
Mas de repente, corda rompida, o violão prorrompeu um medonho lamento
E cancros e cânceres vestiram todas as árvores
O universo foi sugado pelo vácuo desse grito.
Mas com meus pés fincados no chão contra esse vendaval de voz
Não surfei nesses miasmas
Dos quais bem sei a foz
Não já desfiei as fibras cruas dessas vias?

Encontrei você sentado entre as árvores
Vomitando o sangue azul de velhos odres
Não tão antigos quanto os suores
Dos seios e do púbis da terra
Cujas feridas fluem futuros
Veja, estandartes estrangeiros em monturos
Arderão na geena de nossa cólera bendita!

Levantem-se, ó vocês assentados nas sombras
Dos bosques e dos bares
Para o balé das emboscadas
Aos berrantes e aos baques
Levantem-se, ó infectados de varíolas
Dos pensamentos e pulsos frouxos
Para o baile das enxadas
As bacantes serão seduzidas pelos deuses
Fabricados por nossos rios confluentes
Abeirados de nossas fulgurantes artérias

Venhamos, façamos as cortantes curvas!
Venhamos, ultrapassemos as estreitas portas!
Vocês não vão dormir para sempre nessas teias de aranha
Vocês não vão roncar para sempre bacharelismos sem sanhas
Tomem posses das dores, vamos!
Baionetas, baiacus, bois-bumbás eriçados!
Banzos plantando bananeiras e planejando badernas
Sejamos flautas entre os lábios de nossos abismos

Nem eu nem você nos contentaremos com alforrias calculadas
Com drogas miseráveis, amores magros e rostos mirrados
Costurados nas fábricas, nas escolas, nas prisões a lições ou a pauladas
Nem eu nem você nos contentaremos com poesia alheia
Sem a pujança onça de nosso pó e nossa maresia
Sem febre xamanística e belicosidade tropicália
Sertões transpirarão seus cangaços e seus mares de cactos
Somos nós, do Gênesis, os malditos espinhos e cardos!

Sigamos mascando as tristezas portuguesas e cuspindo saraivas
Sigamos espezinhando a pureza, convertendo em preciosidade
As escórias e os amálgamas das raças condenadas
As imundícies reluzentes das cores de nossa precariedade
Filhos da Caatinga, filhos do Rio Negro, filhos do concreto, filhos do ultraje
Sigamos, filhos do carbono e do subdesenvolvimento!

Cerveja para as onças de nossa carne
Corre na jugular dos homens de Estado e de Empresa
Nossa humanidade se esticará sobre
O dorso desta terra como um couro de montaria
Acolhendo os minérios e os vegetais
Na verve que estrugirá mil ais;
São eles as cinzas de nossos irmãos e nossos pais
Que os comedores de pedra arrancam aleijando nossa alegria

Não vi você na rua
Alongando canções como colunas do céu
Numa gaiola livresca, só sua
Você andava de lá para cá
Chorava e sorria
Levantava e caia
Cego para a biosfera de espíritos
Surdo para o sangue dos violados
Embotado para a educação das pedras
Tolhendo a intuição mediúnica das feras
Dedilhei com meus dedos de foice nas grades do seu cárcere
E as cordas plangeram oráculos pontiagudos
Voltem! Voltem os videntes do vórtice porvir!
Faltam poetas do mundo caduco!


II

Confio em vocês, não tenho nada melhor
Confio em vocês, desgraçados, são o meu bem e meu mal
Confio em vocês e faremos ainda pior!

Não aprenderemos mais a sublimar a barbárie
Nós, nervura do coração das trevas
Não renunciaremos mais às fábricas de intempérie
Em cada peito um tambor furioso em festa

Conclamamos todas as pernas e todas as mãos
E em cada tórax um alvoroço
Evocamos os espíritos das pedras e das feras, irmãos
Para desfazer o corpo escravo
Casulo artificial mirrado
Evocamos concepções e partos de demoníacos cidadãos
E esporramos dos poros cadentes esporos

A cabeça repousada pesará
Quebremos a cabeçadas o cativeiro
Da terra e do corpo
Em solitárias noites mofadas trovejará
As vozes do sangue e o gemido antigo
A cabeça repousada pesará
E rápido indicarão o verbete no dicionário dos enfermos
Assombrados com o periculoso rufar
De nossos peitos e estômagos famintos
Entende, você foi picado por varíolas mentais, o inimigo dirá
Com o dedo apontado ao mais próximo alvéolo acolchoado
Se para bom gado dermos os sete passos
Talvez nos concedam capim verde para pastar
Quem sabe até uma alma, uma farda ou um posto!
A cabeça repousada pesará

Acredito em vocês, descendentes do que virá
Acredito em vocês, ex-amordaçados, para um golpe fatal
Acredito em vocês, ó degenerados, o resto é trivial

Amaremos drogarias nos berçários da floresta
Mamaremos leites fortes e branquearemos os olhos
Passaremos a fronteira, desceremos em novena
Calçados ou descalços
Sob os jornais, viandas fétidas estiradas nas ruas
Ressuscitam ao nosso bufar e às nossas pisadas
O mundo foi tacanho até aqui, eia!
Cambada, retirantes, raças tristes, vamos a ceia!
A fome com que nos fartaram germinou tubarões
Os deuses estrangeiros brilharam até aqui, escureça!
Nossas mãos desenham de carvões
Os novos limites e as novas paisagens
As feras danadas não se amansarão
Mas enuviadas pela fome e pelo frio
Umas as outras devorando e consumindo
A musculatura do novo mundo, tampouco.

Confio em vocês, não tenho trunfo maior
Confio em vocês, infligiremos os mil ais
Confio em vocês, ó danados, faremos justas imorais

III


Garoto sombrio que chega à universidade
Atrás daquele muro está o professor de filosofia
Bicicleta velha, boné colorido e olhar de fealdade
Conversa rápida de esquina
Pacote pra lá, grana pra cá, rusticidade
E o professor rápido embioca num buraco de gia
Funga a purpurina e acorda para empunhar o alto-falante da verdade
Naquela sala de aula está o professor de filosofia
Kant, Hegel, Feuerbach
Zumbis, drones e clones apáticos sentados em fila
Sem cantos, regos e baques

Garoto sombrio que singra asfaltos com a mochila cheia de festas
Vem de terraços batidos e zonas secas
Corpo negro esculpido pelos pontapés do pai e da polícia
Um sangue mais viscoso temperado de veneno e malícia
Garoto sombrio que entra e sai furtivo
Só te enxergam mesmo os pactuários de Mefisto
Tenho mais fé em ti do que no professor de filosofia!
Garoto sombrio, mostra-me as ruas de ouro
Inicia-me nos mistérios de tua paixão
Seremos cangaceiros do fim do mundo
Seremos albatroz e aluvião
Garoto sombrio, façamos um pacto demoníaco
Falta a tua voz em nosso mutirão
Para amolar nossas facas cegas e polir nosso brio
Falta a tua perigosa mão.

Garoto sombrio, bebe também aqui de nossa cabaça
E nutre teus esquivos olhares
Juntos douraremos a violência
Acenderemos o passado e iluminaremos ataques
Nos lambuzando com os seios da árvore da ciência
E nos convertendo em arados e tratores
De uma terra fértil que floresça.

Al Duarte








terça-feira, 8 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS


A criança nua, sentada, comendo areia
Papai chegando, messiânico, pela estrada
A criança crua, descalça, esculpindo a areia
Papai pisando, armado, a calçada
A criança pluma, sem casa, brincando na areia
Papai rosnando, espinhento, salpicando pauladas
A criança luta, com lágrimas, descascamentos
Papai espezinhando, mamãe menstruando nos olhos
Mas a criança lua, crescente, sem pé nem cabeça
E Papai inexistindo, desodiado, lembrança de circo.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Logan, e a reatualização do X-Men.





O filme Logan (2017) parece retomar a problemática originária do X-Men, e  reatualizá-la num contexto apocalíptico, instaurado pelo capitalismo contemporâneo. O que chamo de problemática originária do X-Men é insociável do fascismo de Estado; a condenação às etnias e grupos que não se encaixam no Padrão geral e vazio, investido pelo Estado. É conhecida a relação entre X-Men e a perseguição aos judeus. Ao mencionar o fascismo, logo vem à mente Alemanha e Itália e seus governos totalitários. Mas os tais são excrescências do que se passa em Estados chamados democráticos, como os EUA. A afirmação do padrão geral e vazio: Homem-Heterossexual- Branco-Cristão como um fator explicativo da prosperidade econômica, cultural e moral de uma nação, caminha junto com a violência sistemática aos grupos que não se encaixam nesse padrão. O controle desses grupos se torna crucial para a ordem, problema de segurança nacional. No mundo do X-Men, os mutantes são esses focos de perigo.
Charles Xavier sonha com a conciliação entre mutantes e humanos. Ele acredita que é possível educar os mutantes para isso, treiná-los para o exercício controlado de seus dons, em favor da humanidade. Isso ressoa as crenças estadunidenses no comportamentalismo em educação, como no livro Walden II, de Skinner. Não é a toa que Charles é um telepata e tem de conviver com a tentação de controlar mentalmente seus alunos.
Talvez o filme Logan tente fugir da “perigosa” associação entre os mutantes e os imigrantes de origem árabe em solo estadunidense, que vivem um drama análogo, numa irônica irmandade com os judeus. Talvez, com esse fim, o filme se volte para os latino-americanos como encarnação do drama mutante; claro, sem levantar grandes considerações. Na primeira cena, um Logan bêbado e senil trucida uma gangue latina que depredava seu carro. Ele chega a usar o próprio corpo como escudo para a preciosa lataria; velha tara estadunidense por automóveis. Depois é que fica explicado que Logan trabalha de chofer; o carro é seu ganha-pão. Há aqui qualquer coisa parecida com o filme de Eastwood, Gran Torino (2008). Tal como o protagonista desse, Logan não tem inicialmente muita sensibilidade para com latinos, mas com o correr do drama, acaba se envolvendo afetivamente com a questão.
Estamos num cenário catastrófico, mais ou menos como o Star Wars ep. IV está para o ep I, II e III. Os heroísmos do passado viraram lenda. Já não nascem mais mutantes. O filme tem a liberdade de se referir a edições originais de HQs do X-Men como produtos de mera fantasia. O grande mentor, Charles Xavier, tem Alzheimer; quem ensinava os mutantes a dominar seus dons, agora é um perturbado que depende de cuidados e medicação. O que lhe resta é apenas um grande coração; coisa que falta ao seu guardião, Logan. Esse cenário catastrófico é indissociável do neocolonialismo econômico, que os países centrais EUA e Canadá exercem sobre a América Latina (no caso, o México), e do caráter hiperdesenvolvido da biotecnologia que o capitalismo contemporâneo emprega.
A trama inicia quando Logan se cruza com uma enfermeira, ex-funcionária da empresa que realiza experimentos com clonagem e modificação de organismos humanos. Trata-se da extensão das experiências com os transgênicos vegetais aos humanos. Mulheres mexicanas são usadas como cobaias para a reprodução de mutantes, que são controlados e usados como armas vivas; atualização do projeto Arma X que fabricou o Wolverine. O filme pode ser visto como uma reativação da utopia mutante, o X-Men. A reatualização da utopia de Xavier adquire uma configuração peculiar, própria de um mundo apocalíptico. Não é uma simples resolução do dualismo: mutantes X humanos, pois a oposição maior parece ser entre mutantes controlados pela Empresa, e mutantes que se rebelam contra esse controle. Os humanos do filme, tirando os ingênuos que vivem na ignorância do que as Empresas fazem obscuramente, se distribuem nessa oposição: os que participam do controle dos mutantes e os que se resistem a ele, como a enfermeira mexicana.
A reatualização da problemática dos mutantes incide sobre descendentes de latino-americanos, produtos in vitro do neocolonialismo econômico, e de seu potencial biotecnológico. A Empresa ressuscita os mutantes, como num Jurassic Park humano, a fim de explorá-los. Nessa atualização dos possíveis X-Men não há mais lideres, não há mais tradição nem referência do passado. Os jovens mutantes fogem para um possível refúgio, com coordenadas vagas; terão de se virar sozinhos, recomeçar do zero. Nesse ponto, podemos ficar indecisos na leitura do filme. Se ele faz uma gestão do drama da juventude atual, reativando seus narcisismos que depreciam a História e as referências do passado, e deliram começar tudo do zero. Afinal, Laura como seus companheiros adolescentes, nasce órfã, clone, vida reduzida ao mero organismo, nua de tradições. Ou se esses jovens mutantes rebeldes são os que superam o pessimismo cansado de seus antecessores, e se esforçam para reativar o passado, precisamente por conta da nudez cultural em que nasceram. Afinal, para eles, HQs dos X-Men não são mera fantasia, são espécies de panfletos revolucionários.

Allison Barbosa




segunda-feira, 26 de junho de 2017

ANARQUIA COMO UM MÉTODO

Penso que anarquia é um movimento mais do que um estado de espírito. Um método mais do que uma doutrina. Um método da imanência; epistemológico, ético e político, bastante eficiente. Epistemológico, porque a gente só aprende e só produz conhecimento por meio de processos anárquicos, que inciam na sensibilidade e de exigências bem práticas. O cérebro procede de maneira anárquica e ao mesmo tempo ordeira. Francisco Varela, biólogo chileno, que o diga. Isso não quebra as devidas formalidades, mas as faz viver. Ético porque a gente já sabe que a vigilância de Deus e da polícia não garante a boa conduta coletiva; autoridade nenhuma garante reflexão e ação éticas. Político porque os sistemas e instituições que ordenam as coletividades só seriam fecundos para o bem geral se fossem imanentes às coletividades, prontos para serem destruídos e recriados quando deixam de ser eficientes. Aí se forma o círculo: a aprendizagem; produção e distribuição de conhecimento geral; que se engata com a ética, visando a política. O complexo anárquico é sempre coletivo e ordeiro. Pensar isso como especulação, tirando do vácuo, é fácil. O problema é que o Estado capitalista é um fato e a História e o tempo são irreversíveis. Há anarquistas, como alguns punks, que parecem querer expiar uma culpa cristã degeneração da sociedade sob o Estado, e viram monges, puritanos - afastam-se o quanto podem da realidade, denegando-a, evitando sujar as mãos. Outros, preferem fazer do anarquismo um método revolucionário, de perturbação, destruição e criação política. (Isso seria fazer rizoma na árvore, pra usar a língua de Deleuze). Eles procedem por arriscadas gambiarras e por misturas, sem abrir mão de um rigoroso adestramento teórico e ético. Qual postura mais dura ou a mais alegre, a monástica ou a revolucionária?

OS SEGREDOS DE SEUS OLHOS, NADA E PAIXÃO

No filme argentino O segredo de seus olhos (Juan Campanella, 2009), a questão “como se faz para viver uma vida cheia de nada” circula entre os personagens. Cada um tem de se haver com o seu nada. O filme inicia com o protagonista tentando escrever um romance a fim de viver o seu nada, uma iniciativa múltipla, que reúne a retomada de um caso de investigação, o amor perdido, e a resposta pra essa questão partilhada por todos. O interessante é que o nada não aparece como a falta essencial do desejo, como na psicanálise, mas como algo acidental, superficial, gerado pelos azares, pelos desencontros, pela violência. É a impossibilidade do amor por conta de diferenças de posição social ou por pressões externas, é o criminoso que violenta e mata e instala o nada na vida alheia. O nada é superficial, gerado pelos azares, pela violência, pelas dessimetrias sociais com seus códigos. O que cada um faz pra resolver a questão é algo singular e para além do bem e do mal, porque é algo da ordem da paixão. A vítima aplicar sua vingança ao criminoso que instalou o nada em sua vida, condenando-o a compartilhar de seu nada, é sua paixão. O homem que tem uma boa profissão, uma boa mulher, mas desperdiça todo seu dinheiro nos bares, é sua paixão. Tal como alguém inábil em escrever romances, que inicia um para preencher seu nada.